História

RECORTES DA HISTÓRIA DA ESCOLA TRAJANO CAMARGO (1934-2019)

 

Marlene Aparecida Guiselini Benedetti

professora de História responsável pelo Centro de Memória da Etec Trajano Camargo

set. 2019

1. Dr. Trajano de Barros Camargo 

O Dr. Trajano de Barros Camargo é o patrono da escola técnica de Limeira-SP.
Trajano nasceu no dia 15 de março de 1890, sexto filho do Cel. Flamínio Ferreira de Camargo e de D. Cândida Virgínia de Barros, sua segunda esposa, membros de tradicionais famílias limeirenses.
Frequentou escolas na cidade de São Paulo: o curso primário no Colégio Buarque e no Seminário Episcopal, o secundário na Escola Americana e o curso superior na Escola de Engenharia do Mackenzie College. (O VAGALUME, 1930).

 

Figura 1. Trajano de Barros Camargo.
Fonte: Centro Municipal de Memória Histórica
de Limeira.

 

Diplomou-se aos 19 anos, em 1909. No início do ano seguinte, ingressou na University of Wisconsin, na cidade de Madison, para fazer um curso de especialização em mecânica industrial. Não concluiu os estudos. Regressou devido ao falecimento de seu pai.

A partir de 1911, dedicou-se ao comércio e à indústria de madeira no povoado chamado Faxina de Itapeva, hoje cidade de Itapeva. Lecionou matemática na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Nessa cidade conheceu a professora Maria Thereza Silveira Mello. O casamento aconteceu, no dia 10 de fevereiro de 1914, no Rio de Janeiro, onde residia o Dr. Silveira Mello, pai da noiva.

            Trajano Camargo, no dia 30 de janeiro de 1914, constituiu com dois sócios, o  dentista Abelardo Aguiar de Souza e Antonio Augusto de Barros Penteado, seu cunhado, a empresa “Souza Penteado & Cia”, para a produção de máquinas de beneficiamento de café. Em 1917, com a saída do primeiro sócio, a indústria, já com a denominação de “B. Penteado & Cia” foi transferida de Piracicaba para Limeira. No início dos anos de 1920, o Dr. Trajano concebeu o primeiro descascador de café por impacto do Brasil. A criação foi significativa para a indústria nacional, o que lhe deu um importante prêmio na Exposição Internacional do Rio de Janeiro1.

Na década de 1920, foi grande o crescimento da empresa, agora denominada Machina São Paulo, atraindo profissionais de cidades vizinhas. No seu apogeu, chegou a ter mais de 600 empregados. Alguns deles, com o estímulo do patrão, fundaram, mais tarde, oficinas e fábricas do ramo mecânico-metalúrgico. Para os filhos dos funcionários, os maiores de 12 anos, a Machina São Paulo ofereceu na própria fábrica cursos de carpintaria e de montagem de máquinas. Os aprendizes produziam e aumentavam a renda familiar. A sociedade com Antonio Augusto de B. Penteado foi desfeita2.

 

Figura 2. Machina S. Paulo: empregados, contramestres e aprendizes, 1925.
Fonte: Centro de Memória da Etec Trajano Camargo.


1 Exposição realizada para celebrar o centenário da independência, no Rio de Janeiro, capital federal. Foi aberta oficialmente, na tarde de 07 de setembro de 1922 e encerrada na primeira semana de julho de 1923. Tinha como objetivo “incentivar o intercâmbio comercial com as nações amigas, como Inglaterra, Estados Unidos, França, Itália e outras. (100 ANOS DA REPÜBLICA. Volume III, p.21)
2 Dr. Trajano era sócio e um dos fundadores da firma B. Penteado & Companhia. Por ser tratado por muitos fregueses como Penteado, optou por assinar Trajano B. Camargo Penteado. É o que consta da averbação judicialmente autorizada em 07 de fevereiro de 1927. (Certidão de Nascimento em Inteiro Teor, cópia do original,28/05/2007).

 

A Machina São Paulo, antes mesmo da legislação trabalhista expressa na Constituição Federal de 1934, concedeu benefícios a seus empregados, tais como férias, assistência médica familiar, participação nos lucros, incentivos à evolução de carreira e gratificação conforme o desempenho. Para os seus encarregados, os contramestres, o Dr. Trajano mandou construir quarenta e oito pequenas casas na Villa São Paulo, uma quadra delimitada pelas ruas Tiradentes, Humaitá, Carlos Gomes e uma rua sem nome (hoje Tenente Belizário). Com o mesmo propósito, adquiriu onze casas pequenas na Villa Sant’Anna, na quadra delimitada pelas ruas Visconde do Rio Branco, Alferes Franco, 1º de Março (atual Presidente Roosevelt) e Humaitá.

Estimulou a transferência, em 1923, de Descalvado para Limeira, do Colégio Santo Antônio, escola de instrução primária e secundária, sob a direção geral do professor Antonio de Queiroz, seu colega de estudos no Mackenzie College.

Foi um limeirense atuante em sua comunidade, nos setores da educação, da  cultura e da política. Foi vereador, ocupou os cargos de presidente da Câmara Municipal, de vice-prefeito e, várias vezes, o de prefeito.

Faleceu em Limeira no dia 8 de abril de 1930, vítima da moléstia de Hodgkin, aos 40 anos de idade, como está registrado na certidão de óbito. Deixou viúva a Sra. Maria Thereza Silveira de Barros Camargo e sete filhos menores: Nelson, Flávio, Renato, Flamínio, Trajano, Prudente e Maria Thereza. 
Era visto por seus conterrâneos como um homem bom, caridoso, modesto, simples, de grande valor e cultura, um homem sem vaidade e sem orgulho que amou o estudo, o trabalho e os pobres.

 

  1. Maria Thereza Silveira de Barros Camargo 

Maria Thereza Silveira Mello nasceu em Piracicaba, em 12 de novembro de 1894, filha de D. Maria Amélia de Morais Silveira e do Dr. João Baptista da Silveira Mello. Era a primeira neta de Prudente de Morais, terceiro Presidente da República (1894-1898), o primeiro eleito por voto direto. Cursou a escola normal e se formou professora. Em 1914, casou-se, no Rio de Janeiro, com Trajano de Barros Camargo, engenheiro, descendente dos antigos povoadores de Limeira. A música era um dos interesses que partilhavam, ela tocava piano e ele flauta. Tiveram nove filhos sendo que dois meninos faleceram com pouca idade.

Em abril de 1930, ficou viúva. Assumiu os negócios do marido e iniciou a carreira política. Participou do esforço dos revolucionários paulistas de 1932, foi presidente do diretório do Partido Constitucionalista, foi nomeada para o cargo de prefeito, em 5 de julho de 1934, pelo interventor Armando de Salles Oliveira. Foi a primeira prefeita do Estado de S. Paulo e a primeira, ou uma das primeiras, do Brasil.
A posse ocorreu no dia 19 de julho. “Em pouco tempo, sua atuação na Prefeitura revolucionou a política local, que durante anos, foi dominada pelo Partido Republicano Paulista”. (SHUMAHER e BRAZIL, p. 411).

 

Figura 3. Maria Thereza de Barros Camargo.
Fonte: Centro Municipal de Memória Histórica de Limeira.  

 

 

  1. Maria Thereza Silveira de Barros Camargo, em 05 de setembro de 1934, pelo Ato Municipal nº 39, criou a Escola Profissional Primária Municipal de Limeira que, com o nome de Escola Profissional Mixta “Dr. Trajano Camargo”, funcionou em prédio da família, de 1935 a 1939, quando foi extinta. Em atendimento às solicitações da população e da prefeita, o Decreto nº 6.708, de 28 de setembro de 1934, criou o 2º Grupo Escolar de Limeira em terreno da prefeitura municipal e com recursos próprios de D. Maria Thereza, posteriormente, reembolsada pelo Estado. A escola foi inaugurada no dia 7 de maio de 1939 e, dois anos depois, passou a se chamar Grupo Escolar “Brasil”.

Foi eleita deputada estadual pelo Partido Constitucionalista, em 1935. Em um pronunciamento, nesse mesmo ano, defendeu o desenvolvimento da sericicultura no Estado de São Paulo, posto que a indústria da seda poderia gerar uma grande fonte de renda e, apresentou “projeto de lei autorizando o governo do estado de SãoPaulo a receber, em doação, terreno oferecido pela prefeitura de Limeira para a instalação de uma estação sericícola experimental”.(ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DOESTADO DE S. PAULO, p. 5).

Com o falecimento do Dr. Trajano, ela, Maria Thereza, assumiu a empresa, juntamente com o filho Nelson, de 15 anos de idade. A Machina S. Paulo, como é conhecida, apesar de outras denominações, em cerca de 50 anos de existência, além das máquinas de café, fabricou uma variedade de produtos como descascadores: de milho, arroz, mandioca, material bélico (corpos de granadas de mão, munição para canhão), máquina para a indústria têxtil, rádio, botijão de gás. A indústria abalada por um conjunto de fatores – crise de 1929, Revolução Constitucionalista de 1932, 2ª Guerra Mundial e decisões governamentais, teve que encerrar suas atividades. No início da década de 1960, foi vendida para a Mercedes Benz e suas atividades foram encerradas.

Quando a Escola Industrial Trajano Camargo começou a funcionar em 1953, D. Maria Thereza esteve presente na aula inaugural e nas primeiras formaturas, como homenageada e convidada. 
Morreu com 80 anos, no dia 29 de julho de1975, em S. Paulo. Está enterrada no Cemitério Municipal de Limeira, no túmulo da família.

Era uma mulher de fibra e batalhadora, que muitos serviços prestou a seus funcionários e à Limeira. Maria Thereza Silveira de Barros Camargo é o nome da avenida que nasce no final da Rua Dr. Trajano e de uma escola pública municipal de educação infantil e ensino fundamental (EMEIEF), localizada na Vila Queiroz.

 

  1. A instituição escolar 

Desde sua fundação, em 1953, a escola Trajano Camargo ofereceu diferentes cursos e graus de ensino com vários nomes: Escola Industrial (E.I., dez.1944-fev.1965), Ginásio Industrial Estadual (G.I.E., dez.1965-fev.1975), Centro Estadual Interescolar (C.E.I., fev.1975-fev.1980), Escola Estadual de 2º grau (EESG, fev.1980-fev.1982), Escola Estadual de 1º e 2º grau (EEPSG, fev.1982-dez.1990), Escola Técnica Estadual de Segundo Grau (ETESG, dez.1990-maio1994). A partir de 1º de janeiro de 1992, pelo Decreto nº 34.032 de 22/10/1991 (DOE de 23/10/91), foi transferida da Secretaria da Educação para a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico. O Decreto nº 37.735 de 27/10/93 (DOE 28/10/93) autorizou sua transferência e de todas as escolas técnicas estaduais para o Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza (1º de janeiro de 1994). Recebeu então as denominações de Escola Técnica Estadual (ETE, maio 1994-2007) e de Escola técnica (Etec).

Nesses 64 anos de existência, foram diretores: prof. Creso Assumpção Coimbra (1953-1965); prof. Manoel da Silva (1965-1971); prof. Cyríaco Antônio Hespanhol (1971-1973); prof. Fernando Dário (1973-1975); prof. Arnaldo Luiz de Gaspari (1976-1992); profa. Márcia Della Coletta Sillman (1992-1993); prof. José Henrique Heydman Júnior (1993); Clara Viana Cacci e José Vitório Sacilotto (1994); profa. Neusa Bertim de Campos (1994-2004); Edilze Bonavita M. Mendes (2004); prof. José Henrique Heydman Jr. (2004-2012) e prof. Diogenes Nielsen Jr. (de 2012 até hoje).

 

 

 

Figura 4: Galeria de diretores (corredor do piso térreo).
Fonte: Etec Trajano Camargo.

 

 

3.1 A ORIGEM

Nos primeiros anos do século XX, foram criadas escolas profissionais nas capitais dos estados brasileiros. Em São Paulo foram instaladas duas escolas na capital, a Escola Profissional Feminina (atual Etec Carlos de Campos) e a Escola Profissional Masculina (hoje Etec Getúlio Vargas) e uma na cidade de Amparo, o Liceu de Artes e Ofícios (atual Etec João Belarmino). Posteriormente, o Dr. Armando de Salles Oliveira, interventor federal no estado de São Paulo (1933-35), imprimiu maior impulso ao ensino dos ofícios ao criar cursos ferroviários e núcleos de ensino profissional em Rio Claro, Jundiaí, Campinas, Bauru, Pindamonhangaba, São Paulo e Cachoeira. Estabeleceu também um regime de cooperação entre o Estado e as municipalidades. Limeira, em visível processo de industrialização, com D. Maria Thereza Silveira Mello de Barros Camargo, no cargo de prefeito, criou uma escola profissional pelo Ato Municipal 39 de 05 de setembro e 1934.

A Escola Profissional Mixta Primária de Limeira, posteriormente, denominada Escola Profissional Mixta “Dr. Trajano Camargo” (1934-1939), ocupou um sobrado, pertencente ao espólio do Dr. Trajano, localizado à Rua Barão de Cascalho, nº 25, esquina com a Rua Tiradentes, próximo à estação ferroviária. As primeiras máquinas foram doadas pela Machina S. Paulo que recebia alunos para as aulas práticas. Era uma escola primária profissional mantida até 1938 pela prefeitura municipal. No período da tarde, diariamente, inclusive aos sábados, oferecia os cursos de marcenaria e mecânica (masculino) e de corte e confecções (feminino), com a duração de dois anos (ou três, conforme depoentes) e se destinavam aos concluintes do grupo primário, maiores de doze anos. À noite, três vezes na semana (2ª, 4ª e 6ª feira), eram formadas turmas de corte e confecções, desenho técnico profissional e alfabetização para menores e adultos de ambos os sexos.

Apesar da efetiva participação da escola na comunidade, o decreto nº 9.422, de 17 de agosto de 1938, transferiu para o Estado os encargos da escola profissional e fixou sua extinção para 1939. A partir de então, Limeira ficou sem a sua escola profissional primária, sem a pretendida escola profissional secundária e sem a prometida escola profissional agrícola e industrial. Portanto, a origem da Etec Trajano Camargo encontra-se na Escola Profissional Mixta Primária de Limeira, dos anos 1930.


3.2 A ESCOLA INDUSTRIAL

Anos depois, o Decreto-lei nº 14.385, de 19 de dezembro de 1944, criou uma escola, sob a denominação de Escola Industrial “Trajano Camargo”, subordinada à Superintendência do Ensino Profissional da Secretaria da Educação e Saúde Pública, inicialmente com os cursos de mecânica de máquinas, fundição e máquinas e instalações elétricas. Sua organização e regime deveriam obedecer aos fixados pela Lei Orgânica do Ensino Industrial - Decreto-Lei Federal nº 4.073 de 20 de janeiro de 1942. A Prefeitura Municipal de Limeira doou à Fazenda do Estado de São Paulo (abril de 1946), um terreno com 5.760 m2 para a construção do prédio. As obras estiveram paralisadas durante anos à espera de liberação de verbas.

 

 

Figura 5. Oficinas – lateral esquerda e direita, nov.1953.
Fonte: Acervo Celestino Mikami.

 

 

Em 1953, apenas o prédio dos fundos estava pronto para acolher alunos, professores e funcionários. No período diurno (manhã e tarde) a nova escola ofereceu o curso industrial básico de mecânica de máquinas. O currículo era composto por disciplinas de cultura geral, de cultura técnica e por práticas educativas. Ao final de quatro anos, os alunos recebiam um diploma de artífice na sua especialidade. A primeira turma com quinze rapazes se diplomou em dezembro de 1956. No noturno, funcionou o curso extraordinário de torneiro mecânico, ajustador mecânico e desenho técnico mecânico, com as séries iniciação (1o. ano), continuação (2o.) e complementar (3o.). Em cultura geral, estudaram português e matemática, em cultura técnica, desenho, tecnologia e oficina. Após três anos de estudos, receberam um certificado. A primeira turma de concluintes das duas primeiras secções – torneiro e ajustador mecânico, ocorreu em dezembro de 1955 e a de desenho técnico mecânico em dezembro de 1957. 

Tanto no diurno como no noturno, o abandono da escola era grande, basicamente, pela necessidade de trabalhar (a lei permitia o trabalho para os maiores de 14 anos), pelas dificuldades de aprendizagem, acrescidas, no noturno, pela de conciliar escola-trabalho-família e, às vezes, serviço militar.

Com o prédio da frente finalizado, mas não inteiramente concluído, no início de 1960, entrou em funcionamento o curso feminino. As candidatas prestavam o exame de admissão e, sendo aprovadas, iniciavam um curso novo na cidade que mesclava matérias tradicionais com as voltadas à administração do lar, aos trabalhos manuais (corte e costura, flores e bordados) e às práticas de cozinha. Era o curso ginasial industrial, secção corte e costura, em período integral.

As disciplinas de cultura geral (português, matemática, ciências, geografia ou história, inglês) e as práticas educativas (educação física e canto) eram anuais e comuns aos cursos masculino e feminino. As aulas de educação física para os meninos era ministrada por professores e, para as meninas, por professoras. Mas, nas aulas de canto, as turmas se juntavam.

A quadra de esportes, construída no início dos anos de 1960, com piso de ladrilho antiderrapante, foi uma realização conjunta de professores, funcionários e alunos, coordenados pelo professor de educação física, Júlio Américo Barbugli Abbade3, com a venda de muitos e muitos números de rifa. Os prêmios foram: carro Dauphine (1º), aparelho de televisão (2º), rádio vitrola (3º) e bicicleta (4º).
No início dos anos 1960, o busto do Dr. Trajano sobre uma coluna de granito foi trasladado do pátio da Machina S. Paulo para o jardim externo do prédio escolar. Nenhum fotógrafo parece ter registrado o acontecimento.

3.3 AS HABILITAÇÕES PROFISSIONAIS DE 2O GRAU

As pesquisas anteriores narraram recortes temporais da história da escola Trajano Camargo enquanto ginásio estadual, com turmas da 5a. a 8a. série ginasial, 3 Na homenagem que lhe foi prestada durante a comemoração dos 63 anos da escola, o prof. Júlio Abbade descerrou, no palco do auditório, a placa da quadra esportiva com seu nome. Como foi dito na sessão, “O nome do prof. Júlio Américo Barbugli Abbade que, um dia, esteve gravado em placa da quadra esportiva, volta para o lugar que conquistou em 27 anos de intenso trabalho na escola Trajano Camargo, de onde diz ter muitas saudades.” nas décadas de 1950 e 1960. Mudanças ocorreram, na década de 1970 com a criação das habilitações profissionais de 2º grau. Assim é que, no Ginásio Industrial Estadual Trajano Camargo de Limeira, em 1974, foi autorizada a abertura de uma classe de 1ª série do 2º grau do curso técnico em Metalurgia. No ano seguinte, foram autorizadas as habilitações profissionais de 2o grau, de técnico em Eletromecânica, Economia Doméstica e Desenhista de Ferramentas e Dispositivos (DFD). Em 1976, com o nome de Centro Estadual Interescolar Trajano Camargo recebeu o curso de Nutrição e Dietética, como a 5ª habilitação, o de Decoração (1977) e o de Mecânica (1978). As habilitações profissionais parciais ou plenas, eram oferecidas nos turnos diurno e/ou noturno.

 

Estudos mais detalhados foram desenvolvidos sobre o curso de metalurgia e os da área de elétrica (eletromecânica – 1975 a 1992, e eletroeletrônica, desde 1993), foram realizadas comemorações de 40 anos e palestras sobre o mercado de trabalho. As fontes de consulta foram os documentos arquivísticos da secretaria acadêmica (fichas individuais de alunos, livros e atas de resultados finais) e da diretoria de serviços (prontuários de professores). Também foram consultadas grades curriculares, equipamentos de laboratórios, depoimentos de história oral e lembranças de antigos alunos e professores, enquete com alunos e professores, relatórios de estágio, fotografias. Tudo para traçar um quadro sobre a legislação vigente, a formação dos professores, a origem dos alunos, a organização das turmas, as exigências legais e normas disciplinares, como era vista a escola na comunidade, enfim sobre o funcionamento do Trajano Camargo, no período em questão. Textos foram escritos, mas não publicados, sobre os cursos de metalurgia e os da área elétrica e realizado um levantamento parcial sobre o técnico de mecânica.

O denominado Projeto Nutrição foi desenvolvido entre março e agosto de 2016. Foi diferente dos projetos de pesquisa anteriores pela coleta superficial de dados em fontes primárias (prontuários, fichas e grades curriculares), porque não foi acompanhado por um histórico, porque, desde o início, contou com a colaboração das alunas do 2o. Etim Nutrição e de Maria Rita Contin Castro, professora e coordenadora do curso, atualmente no cargo de orientadora educacional.

 

 

As fontes foram as entrevistas feitas por alunas com cursantes do sexo masculino do curso médio integrado ao técnico – ETIM, e com os alunos, de ambos os sexos, do técnico modular. As perguntas abertas, respondidas por e-mail, foram tabuladas e analisadas. Outras alunas colheram depoimentos de professoras para conhecer o ensino e as peculiaridades da habilitação, em décadas passadas. Um estudante desenhou e outra coloriu o logo para a sessão comemorativa, que teve um breve histórico, projeção de slides dos professores, alunos e laboratórios, homenagens, momento musical pelas alunas do 2o. ano e sessão de fotos. 

  1. O Centro de Memória da Etec Trajano Camargo

Os projetos de pesquisa, desenvolvidos por dez anos, sobre determinados momentos da história da instituição escolar geraram uma quantidade razoável de documentos como certidões cartoriais, diplomas, certificados, fotografias e reproduções, entrevistas gravadas com som e imagem e outros. Os artefatos estavam em salas e laboratórios, na diretoria de serviços. A possibilidade de juntálos num mesmo espaço reforçou a necessidade de um centro de memória.

Numa sala de 22m2 (3,50mX6,30m), no piso superior, voltada para a Rua Tenente Belizário, a tarefa foi e continua sendo organizar o acervo, mobiliar, classificar em pastas e caixas os documentos em papel, iniciar um arquivo fotográfico, recuperar e fazer funcionar, na medida do possível, algum material didático-pedagógico de décadas anteriores, diminuir a luminosidade oferecida por um amplo vitrô e a compra de um HD externo para armazenamento do material digitado, digitalizado, reproduzido, filmado e fotografado.
O centro de memória foi oficialmente inaugurado em 28 de setembro de 2016 durante a 11a. Feira de Projetos e Tecnologia. Fotos, dispositivos fotográficos em slides e artefatos captaram a atenção e o interesse dos visitantes. A apresentação do acervo foi feita pelos alunos do Projeto Troféus (uma proposta de trabalho com os prêmios) e pelos monitores de história. Além dos sessenta troféus, majoritariamente esportivos, hoje há alguns artefatos provenientes dos laboratórios de metalografia, instalações elétricas e química, material didático-pedagógico e de uso administrativo.

A organização do acervo arquivistico, em pastas físicas e digitais é uma atividade contínua, realizada, aos poucos, entremeada a outras, até que todo material já coletado e produzido tenha sido classificado. Mesmo com lacunas, as fichas de registro dos objetos têm sido preenchidas. Os objetos museológicos do acervo (cerca de cem), tem sido utilizados para a montagem de slides para palestras, apresentações em jornadas e simpósios no Centro Paula Souza e na Etec, para a confecção de video, para exposições internas e externas -eventos na Cetec, em SP. O acervo tem sido disponibilizado a estudantes de universidades, basicamente ex-alunos do Trajano, aos projetos de atuais alunos.

O centro de memória abre para visitas, em datas especiais.

 

 

Figuras 5,6,7,8. Centro de Memória da Etec Trajano Camargo: balança analítica, microscópios metalográficos, projetor de filmes, canhão de luz, mimeógrafo a álcool; fornos, relógios, bancada de marceneiro, utensílios de mecânica; troféus e escrivaninha; troféus e prêmios, projetores de slides, máquinas de datilografia, calculadora e mesa de costura.

 

  

REFERÊNCIAS
Fontes primárias

Arquivos: da Câmara Municipal de Limeira, da Etec Trajano Camargo, do Centro de Memória da Etec Trajano Camargo, do Centro Municipal de Memória Histórica de
Limeira, do jornal Gazeta de Limeira.

Fontes orais

Depoimentos de: Alfredo Pezzoto, Antenor Ghisellini, Celestino Mikami, Daisy Santiago Ramello Ferreira, Dora Arruda Binotti, Everaldo Chinellato, Ida de Souza
Coelho, José Carlos Faveri, José Henrique Heydman Jr., Júlio Amércio Barbugli Abbade, Manoel da Silva, Maria Negro Lencioni, Muris Dumit, Nairo Angelo Ferlin, Osmar Bacan.

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